Renato César Sacchetto Torres
A displasia coxofemoral (DCF) é uma malformação da cabeça do fêmur e acetábulo; sendo uma alteração de grande importância em cães não só pela alta incidência, mas também pela intensidade com que os sintomas e as lesões podem se apresentar. Tal enfermidade acomete principalmente animais de médio e grande portes, raramente sendo observada em cães com menos de 12 quilos (Tôrres, 2003).
Sabe-se que a DCF possui caráter essencialmente hereditário, embora fatores ambientais como desequilíbrio nutricional, exercício ou confinamento extremos, estejam correlacionados (Hedhammar et al., 1974; Hedhammar et al., 1979; Ferreira & Costa, 1983; Shepherd, 1986; Araújo, 1995). A participação de múltiplos fatores pressupõe a influência de um grande número de genes, sugerindo uma herança poligênica e multifatorial. Sendo a herdabilidade de média a alta, justifica-se a realização de programas de controle. Os programas em vários países são baseados no estudo do fenótipo das articulações coxofemorais (Dal-farra & Kilp, 1998).
O diagnóstico é feito quase que exclusivamente por meio do exame radiográfico (Brass, 1989; Torres, 1993). O Método Radiográfico Convencional (MRC), adotado em todo mundo, é composto em parte por uma análise subjetiva, baseada em evidências radiográficas da doença articular degenerativa (DAD), e outra na análise da relação existente entre o acetábulo e a cabeça do fêmur, como, por exemplo, medindo-se o ângulo de Norberg ou o percentual de cobertura da cabeça femoral pelo acetábulo. Pelo MRC é possível o diagnóstico aos 6 meses de idade nos casos mais graves. Entretanto, observou-se que somente 80% dos animais afetados podem ser identificados pelo método em questão na idade de 12 meses e 95% aos 2 anos.Por este motivo adotou-se a idade mínima de 2 anos para realização do exame radiográfico definitivo, independentemente da raça (Lust et al., 1985; Rendano & Ryan, 1985; Wallace, 1987). Mesmo assim, estudos demonstraram que 55% dos animais tidos como normais pelo MRC, apresentaram sinais de DCF ao fim da vida, o que mostra a ineficiência do método (Kapatkin et al., 2002; Tôrres, 2003).
Desde as primeiras descrições a DCF tem sido associada à frouxidão articular (subluxação) e a intensidade da DAD (Henricson et al., 1966; Lust et al., 1980; Kapatkin et al., 2002). No entanto, os fatores já descritos não explicam adequadamente a variação observada na expressão da DAD. Alguns cães com articulações concêntricas e justas podem desenvolver DAD e nem todos os cães com articulações frouxas desenvolvem estas alterações (Lust et al., 1993; Smith et al., 1993; Adms et al., 1998). Não obstante, admitir a hipótese da relação entre frouxidão articular e DAD possibilitou então formar a base para os mais recentes métodos de diagnóstico propostos, que visam principalmente o diagnóstico precoce e a identificação de animais com articulações frouxas, porém não diagnosticadas pelo MRC (Kapatkin et al., 2002; Tôrres, 2003).
Para melhor explicar a variação observada na expressão da DAD, dividiu-se conceitualmente a frouxidão articular coxofemoral em dois tipos: passiva, que é observada por meio do exame radiográfico ou pela palpação, e funcional que é a forma patológica, não mensurável e que ocorre quando o animal se movimenta. A frouxidão passiva é sempre precursora da frouxidão funcional e uma vez o animal apresentando a funcional, ele terá DAD, cuja gravidade será proporcional à intensidade da frouxidão. O mecanismo pelo qual a forma passiva é convertida em funcional é ignorado, porém fatores ambientais podem ter um papel importante nesta conversão. Outro ponto relevante e talvez o mais importante é o fato da característica “frouxidão articular” ser essencialmente genética, sem, portanto sofrer influência do meio (Smith et al., 1993; Madsen, 1997; Tôrres, 2003).
Considerando-se os aspectos mencionados, tem sido proposta a radiofrafia das articulações coxofemorais em distração. O exame visa a identificação de articulações frouxas em idade precoce. Para tal, utiliza-se um dispositivo denominado distrator com a finalidade de se determinar o índice de distração (ID), que é a magnitude de separação entre as superfícies articulares das referidas articulações. O animal é colocado em decúbito dorsal, com os membros posteriores em posição neutra. Entre os membros ajusta-se o distrator, para em seguida ser realizada a radiografia. O ID é uma medida direta da instabilidade articular. Ele varia de 0 (zero) a 1 (um), sendo que quanto mais próximo de 0 (zero) mais justa, congruente e estável é a articulação, e quanto mais próxima de 1 (um) maior instabilidade, podendo chegar à luxação (Smith et al., 1990). Por este método, que pode ser realizado a partir dos 4 (quatro) meses de idade, é possível o diagnóstico de animais com articulações frouxas e a observação dos falsos negativos (4 a 12%), que são aqueles animais considerados normais pelo MRC (Smith et al., 1990; Adams 2000; Tôrres 2003).
Mesmo que um determinado cão tenha somente frouxidão articular passiva, sem portanto apresentar sinais de DAD,ele transmitirá esta característica aos seus descendentes, por ser a frouxidão articular essencialmente genética. Assim, tendo em vista a superioridade comprovada do método em distração, é de se esperar que, se adotado como padrão, haja uma maior pressão de seleção e conseqentemente melhores resultados no controle da DCF, haja vista a antecipação do exame em aproximadamente 18 meses quando comparado ao MRC (Smith et al., 1990; Lust etal., 2001; Smith et al., 1997; Tôrres, 2003). No entanto, somente a adoção do novo método não basta. é necessário que haja uma proposta séria de controle da DCF canina no Brasil, pois da maneira como tem sido feito, ou seja, por iniciativas isoladas de proprietários ou associações, os resultados continuarão pobres, bem aquém dos observados nos países onde a DCF é tratada com o devido rigor (Tôrres 2005).
FEV

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Sobre o Autor
Adriano Gaspar - Proprietário do Canil Golden Garden.